Os 40 anos de uma viagem

Esta viagem ocorreu há mais de 40 anos

Texto: Osvaldo Tadeu Strada.

Personagens: Orlando Strada e Osvaldo Tadeu Strada.

Manhã de quarta-feira, por volta das 04:30 horas, 1967, férias escolares, no parque Novo Mundo, acesso da Rodovia Dutra:  lá estava eu no FNM D-11 1962 engatado em uma carreta tanque ‘irrigadeira’ 0 km de dois eixos, de propriedade da Construtora Camargo Corrêa.

Tínhamos que entregar a carreta em Farinhas, região de Campina Grande, na Paraíba. Meu pai fez o sinal da cruz, hábito que vi repetidas vezes ele fazer, sempre que saía para alguma viagem.

A terceira reduzida se fez necessária na subida e logo foi colocando a quarta, e em frente ao atual posto Presidente a ‘banguela’ já era a “marcha” escolhida. O rodar suave da ‘jamanta’ – termo da época – era visto por alguns que aguardavam no ponto de ônibus, e lá íamos nós com o Alfão na subida para chegar à antiga PHILLIPS que, vencida, leva novamente a uma grande descida e a banguela entrava novamente em ação.

Até à chegada na região de São José dos Campos foi um sucessão de quartas simples e banguela. Olhava firmemente a paisagem e admirava as precisas engatadas de quarta marcha sem o uso da embreagem, coisa comum para alfeiros experientes.  Chegando na região de Resende um conhecido no acostamento com o seu D-9 parado, aguardava o passar de quem o pudesse ajudar.  Parmos e em seguida, já na cabine, ele contava o ocorrido com o caminhão, e que iria até Além-Paraíba (entroncamento para pegar a Rio-Bahia) comprar a peça e arrumar o bruto.

Espantado, o carona questionava a velocidade do Alfão do meu pai, elogiava muito a tocada firme do caminhão, que andava sem vibrar.  Ouvia de meu velho as explicações para tal fato, como a retirada do tambor do freio estacionário e outras dicas. Afinal, meu pai durante muito tempo teve D-9 e também uma oficina mecânica no Alto da Vila Maria, em São Paulo. Eu olhava, tentava entender as ‘técnicas’ e ficava orgulhoso com os elogios a ele dirigidos.

Já em Além-Paraíba o carona agradeceu e foi seguir o seu árduo caminho, assim como nós seguíamos o nosso.

Nas passagens por Leopoldina, Muriaé, Caratinga, eu olhava o pessoal que também admirava a ‘jamanta’ passar.  Atravessar o centro da cidade era a nossa glória!   O mais interessante é que não era muito comum esse tipo de composição, principalmente a de dois eixos, numa época em que foram implantadas as leis de limites de peso e comprimento, e muitos tiveram que se adaptar às novas regras.

Era noite, perto das 21:00 horas e estávamos em Governador Valadares, parando no posto Pioneiro, talvez o maior posto que já vi, para jantar. Amigo de meu pai, o proprietário veio à mesa do restaurante conversar. Chega nesse momento um antigo sócio do meu pai, o Antonio dos Santos, com um reluzente FNM  0 km verde-seda engatado numa carreta de dois eixos da mesma cor, em sua primeira viagem!  Estava carregado com 25 tons de chapas de aço, rumo a Salvador/BA, e contava que tinha “banguelado” o Alfão e dado inacreditáveis 110km/h, quase estourando o velocímetro.  Esta talvez tinha sido uma das principais razões para que meu pai desfizesse a sociedade com o Antonio, ainda na época do FNM 1963, também na cor verde-seda. Era um bom sujeito, porém com um currículo de acidentes, que o levaram a perder um dedo em Milagres (BA).  A conversa transcorreu em tom bastante amigável.  Eu fui dormir primeiro, e meu pai em seguida chegou à cabine.

Saímos logo cedo, eu ainda dormindo, fui acordado pelo ronco do FNM, rumo à Paraíba, sempre admirando as exímias trocas de marchas. Nessas subidas e descidas lembro-me bem de um D-11 cabine Metro, trucado, que nos acompanhou durante bastante tempo – era também um conhecido de São Paulo, que se orgulhava do fato de a porta de seu FNM abrir ‘para o lado certo’ (atrás).  Eu particularmente achava a cabine Metro muito feia, mas ainda assim, era um FNM.  Na chegada em Jequié fomos recebidos pela Rita, dona do posto da cidade, que tinha um estreito relacionamento com o velho (todos nos receberam com muito entusiasmo – claro que com muito mais atenção para o meu pai do que para mim, mas não estranhei este fato em si, pois era comum na vida dos alfeiros estradeiros).

Dormimos no pátio do posto, eu pelo menos na cabine do caminhão, e na manhã seguinte retomamos a viagem rumo ao nosso destino. Ao chegar em Feira de Santana, meu pai optou por seguir a rota de Paulo Afonso, para que eu pudesse conhecer a famosa cachoeira, localizada num estreitamento do Rio São Francisco, e onde até de cima da ponte o barulho da água era impressionante.  Nesta região são comuns poços que jorram água quente, em virtude da procura infrutífera por petróleo, no início dos anos 60.

A chegada no estado de Pernambuco foi inesquecível: de início, rodamos pela reta do Ibimirim ou Imirim – cada um a chama de um jeito -, são 100 km em uma linha reta que parece interminável, e, em função do calor local, tivemos que esvaziar um pouco os pneus dianteiros para poder percorrê-la, dadas as suas precárias condições.  Exatamente no Km 50 existia uma pequena casa, onde paramos e pudemos beber um pouco de água antes de seguir em frente.

No estado da Paraíba rodávamos suave com o FNM, as condições das rodovias eram melhores, e assim fomos nos aproximando de nosso destino final.  No pátio da Camargo Corrêa pude conhecer os primeiros caminhões Scania modelo 76 (que antecedeu aos 110), uma sensação à época.

Desengatamos a carreta e fomos a Salvador para pegar uma outra carreta, sendo esta uma prancha de dois eixos, de propriedade da Transporte Pesado Brasil, de São Paulo/SP.  Nesta viagem houve também um fato marcante:  ao nos prepararmos para atravessar de balsa o Rio São Francisco, na cidade de Penedo (cuja fila de espera era sempre grande), pude contar mais de 100 caminhões parados, aguardando que se consertasse a balsa.  Destes, cerca de 90 eram certamente FNMs !   Também foi nesta vez que ouvi falar pela primeira vez em diferencial de passo semi-longo:  era de um fenemê trucado, todo enfeitado, de um orgulhoso catarinense.

Nossa viagem de retorno foi excelente.  Na cidade de Milagres encontramos uma série de caminhões FNM transportando para Recife/PE os bondes que haviam sido desativados na cidade de São Paulo.  Eram diversas carretas, incluindo um D-9 cabine Standard que se destacava, sendo o único de “farol em pé” que eu vi rodando em minha vida, engatado numa carreta. Tarefa árdua para um velho D-9 !

A história que contei já tem mais de 40 anos, mas ainda me lembro de cada detalhe, e de cada marcha trocada no destemido Alfão.

Talvez esta seja a principal razão do meu apreço pelos FNMs !

OTS

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