Lembranças da Juventude

Enviada por Róbert P. Stammer.

Entre os anos de 1963 e 1967, a família Stammer morou em uma pequena fazenda localizada à margem da rodovia, entre as belas estâncias hidrominerais de Serra Negra e Lindóia, no estado de São Paulo.

Meu irmão Miklos e eu (que em 1963 tínhamos, respectivamente, 12 e 14 anos) estudávamos em Serra Negra e, nas horas extra-escolares, ajudávamos na lida do campo, colhendo frutas, virando os grãos de café no terreiro, cuidando da horta e, montados a cavalo, tocando o gado no pasto. Nos finais de semana, aguardávamos sempre a vinda de um ou mais amigos da cidade para nos fazer companhia no “mato”, o que era muito esperado por todos. Era uma farra só. Enfim, uma época deliciosa, feliz e inesquecível.

Mas, desde o início, a grande paixão dos irmãos Stammer foram os caminhões FNM, e eles faziam de tudo para ficar o mais próximo deles, o maior tempo possível.

Embora houvesse ônibus para cobrir o trajeto entre a fazendola e a cidade, a nossa preferência sempre foi pela carona, economizando o dinheiro da passagem para cobrir eventuais despesas de final de semana, como cinema, lanchonete,etc.. Mas o interesse pelos fenemês era tão grande, que esnobávamos os carros e caminhões “comuns” e aguardávamos até que passasse um Alfa que nos desse carona. Para sorte e felicidade nossa, essa espera não costumava ser muito longa, pois FNMs é que não faltavam nessa época! Até a empresa de ônibus local, a Rápido Serrano, tinha alguns ônibus FNM – tanto D-9.500 como D-11.000 –, e, claro, quando tínhamos que pegar um, ficávamos monitorando os horários de modo a sempre embarcar num destes, deixando os mais numerosos monoblocos Mercedes para escanteio.

Assim, o nosso relacionamento com os Alfas era intenso e feliz.

Em 1964 o DER começou a asfaltar a estrada entre Águas de Lindóia e Monte Sião (MG), e muitos FNMs se engajaram na obra, transportando cascalho de um local próximo a Serra Negra, até o trecho em construção. Curiosamente, a maioria dos caminhões não era do tipo basculante, mas fenemês “estradeiros” com carroceria de madeira, no toco ou trucados, e que eram atraídos pelo elevado valor do frete. Havia modelos com cabine Standard, Metro e Brasinca, e até um simpático cavalinho amarelo com cabine Inca, engatado num semi-reboque de 2 eixos. Este foi, sem dúvida, o nosso passeio predileto; embarcávamos em um dos Alfas e ficávamos no trajeto o máximo possível, dentro da lógica de “quanto mais viagens, melhor” – tendo, inclusive, “matado” muitas aulas na escola para poder desfrutar dessa paixão (em determinado ano e para o desespero dos meus pais, exagerei na paixão e repeti de ano na escola, por excesso de faltas – o que não foi muito honroso, mas que sem dúvida valeu a pena, pois foi um tempo muito bem aproveitado).

Todos os dias, ao final das aulas, íamos para a beira da estrada na saída de Serra Negra para Lindóia (perto de onde ficava o jardim zoólogico da cidade), e ficávamos ansiosamente aguardando a passagem de algum caminhão FNM. Já éramos então bem conhecidos dos alfeiros – tanto os da região como os estradeiros que puxavam água mineral das fontes de Lindóia para várias cidades do Brasil -, e normalmente eles paravam e nos davam a tão esperada carona. Nós os “recompensávamos” presenteando-os, vez por outra, com sacos plásticos cheios de frutas do sítio: tangerinas, laranjas e mangas. A nossa maior frustração era quando aparecia um FNM desconhecido, que passava batido, sem parar: isso nos deixava arrasados! Algumas vezes, ao sairmos da escola, ouvíamos o ronco de algum Alfa passando lentamente pelas ruas da cidade, e saíamos correndo em disparada, tomando todos os atalhos possíveis, de modo a tentar chegar ao ponto de carona antes do bruto; quando não o conseguíamos – perdendo-o, às vezes, por uns poucos segundos -, isso era muito sofrido, e também motivo de grande decepção (pior ainda era chegar a tempo, e o caminhão não dar carona!).

Como estávamos cursando séries diferentes na escola, meu irmão e eu eventualmente fazíamos o percurso casa-cidade-casa em horários também diferentes, e podia acontecer de um de nós pegar carona com um Brasincão ou Metro desconhecido, ou mesmo um Alfão semi-novo – “privilégio” que, evidentemente, deixava o outro frustrado e morrendo de inveja…

Ficando a nossa propriedade em local elevado, os dias chuvosos eram particularmente apreciados, pois a propagação do som melhorava e, sendo ali uma região serrana, podíamos ouvir de longe o ronco glorioso de algum Alfa trocando marchas no esforço de vencer a sucessão de aclives e declives; e, à medida que ele ia contornando as muitas curvas do trajeto, o som diminuía ou aumentava de intensidade. Nesse aspecto, os mais apreciados eram os FNMs dotados de “estralador” no cano de escape, que fazia o seu ronco reverberar com mais intensidade pelos vales e montanhas, e enchia-nos de júbilo (lembro-me de uns cavalinhos cabine standard da Caracú, puxando semi-reboque fechado de dois eixos, e que tinham, todos, esse tipo de acessório; eles figuravam entre os nossos favoritos!).

No trecho entre Serra Negra e o caminho de acesso à fazenda existe um longo declive, onde numa das minhas caronas cheguei a passar medo: estava a bordo de um FNM standard trucado (truck de arrasto ainda) carregado com tampas de ferro para bueiros, e, pela altura da carga na carroceria, dava para perceber que ele estava levando um peso enorme, bem acima da sua capacidade nominal. O veículo descia a serra em primeira marcha reduzida, com o motor urrando, saindo fumaça aos montes das lonas de freio e o motorista ainda comentando que, se tivesse que parar durante a descida, isso seria totalmente impossível, pois àquela altura não mais dispunha de meios para deter o bruto! Foi um sufoco e tanto, e quando finalmente cheguei ao meu destino, ocorreu uma das raras ocasiões em que não me importei de ter que deixar a boléia de um Alfa…

A vida nessa época era muito agradável, vivíamos uma juventude despreocupada, as pessoas se respeitavam e a segurança era notável, a ponto de conseguirmos pegar carona até de noite! Em outras vezes, quando perdíamos o último ônibus ou deixávamos a cidade ao final de algum baile, podíamos caminhar tranquilamente os 7 km até o sítio, sem qualquer perigo ou ameaça.

Além de mim e de meu mano, alguns amigos e colegas de escola também participavam ocasionalmente dessas inesquecíveis aventuras alfeiras. Gostaria de mencionar aqui o nome dos mais próximos, com os quais compartilhamos essa maravilhosa época, e que nos proporcionaram momentos únicos e de alegria, através de sua amizade: o Márcio Mascigrande, o Marquinho Gambetta, o José Roberto Guidetti, o Geraldinho Bulk e o Sílvio e a Sílvia Macera.

No início de 1968 meus pais venderam a fazendola e nos mudamos para perto da capital, São Paulo, encerrando-se assim essa fase de ouro de nossa juventude e de nossa vida.

Róbert P. Stammer

FNM D-9.500 próx

 

Guidetti (e

 

Robert no cavalinho D-11 (1965)

 

Robert pedindo carona (1964)

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