Viajar de FNM nos velhos tempos

Meu pai dirigiu vários modelos de caminhão FNM, desde o início dos anos 50 até os anos 70, e eu e meu irmão viajamos por muitas cidades brasileiras com ele. Era muito emocionante ouvir aquele ronco forte, o caminhão ia quase sempre sobrecarregado (geralmente com madeira, que era a riqueza maior da época), a demora para chegar ao destino, etc. – mas tudo isso não era nenhum problema para nós, pois era uma aventura indescritível, tanto que contávamos os meses e os dias para a chegada das férias escolares, para podermos novamente pegar a estrada.
Como o caminhão tinha duas camas, eu e meu irmão dormíamos tranqüilos ao ronco grave do motor Alfa Romeo, e meu pai tocava o bruto noite adentro,  dormindo muito pouco.  A vida de caminhoneiro, que hoje é dura, nas décadas de 50 a 70 era muito mais, pois havia vários fatores negativos, como as estradas que eram primitivas, quase sempre de chão batido, com muitos atoleiros na época das chuvas;  os caminhões Fenemê eram verdadeiros desbravadores do Brasil, e tiveram grande participação em sua história e progresso;  eles eram muito duros – dirigir um FNM carregado era um ato heróico!-, as distâncias pareciam maiores devido à falta de estradas boas (e também à lentidão dos caminhões), enfim, os recursos eram bem diferentes dos atuais, tornando muitas vezes uma viagem numa grande e imprevisível aventura.

Muitas vezes meu pai ficava semanas e até meses nas estradas, e nós aguardávamos apreensivos o seu retorno, e o tempo parecia se arrastar por uma eternidade. Na Belém-Brasília, que fora inaugurada em 1960, os Fenemês deixaram um rastro de progresso, pois eram os mais preparados e robustos para enfrentá-la.  Certa vez o velho Reinert, com o caminhão carregado, teve um problema mecânico no meio da Belém-Brasília (nesta época a estrada era um horror, só buracos, lama, mata, erosão, etc.), e como demorou para passar um veículo, ele ficou o dia todo à espera de ajuda, sem sequer uma refeição, pois o lugar era distante de qualquer vilarejo;  e foi só no início da noite que passou um ônibus e ele pôde pegar uma carona para ir buscar a peça necessária na cidade mais próxima e poder seguir viagem.  Imaginem quantos caminhoneiros tiveram problemas parecidos nestas primitivas estradas.

Um fato interessante é que nos lamaçais existentes na época, os caminhões de outras marcas não tinham problemas em ficar atolados…  pois sempre tinha um FNM por perto, para puxá-los do atoleiro.

Lembro que no fim da década de 60 e início da de 70 os Fenemês eram abundantes nas estradas, e quando viajávamos, eu ficava admirando os vários modelos que passavam por nós, era uma maravilha!  O velho Reinert tinha muito amigos caminhoneiros, e praticamente todos guiavam só FNM, pois os populares Mercedes eram fracos e não agüentavam tão bem o sobrepeso usual da época, e nem as condições da estradas Brasileiras.  Vez por outra passavam por nós alguns de seus amigos, que eram reconhecidos à distância pelo caminhão que, apesar de ser da mesma marca, tinha sempre algum detalhe da decoração (comum na época) que o deixava personalizado e diferenciava uns dos outros. Certa vez, numa viagem a São Paulo, carregado de madeira, os outros caminhões insistiam em sinalizar para nós, e parando o caminhão notamos que a carga estava deitando, não tendo caído totalmente devido aos cabos de aço que a enlaçavam. Meu pai parou num posto de combustível, soltou os cabos, e a madeira despencou chão abaixo. Em conseqüência, teve que retornar a Curitiba para buscar alguns “chapas” e recolocar toda a carga, antes de poder seguir viagem (lembro que não teve dificuldade para pegar carona, com um amigo que fazia sentido inverso, em um caminhão que carregava porcos – também um FNM, é claro).  Minha mãe, meu irmão e eu ficamos aguardando no posto, que ficava numa serra. Logo fizemos amizade com os meninos do local, e me lembro que nos levaram até um ninho de beija-flor, onde eu fiquei impressionado com o tamanho dos ovos daquele pequeno pássaro. Tudo resolvido, continuamos a viagem até à capital paulista.
Outras cargas comuns no velho Alfa eram minério de ferro (de Volta Redonda/RJ e Minas Gerais), grãos (para os Portos de Santos e Paranaguá)  e peças para veículos, entre outras.
Hoje existem muitos motoristas de caminhão, que sem dúvida continuam com uma profissão emocionante, mas antigamente existiam os “motoristas de FNM”, que eram inigualáveis devido aos fatores acima descritos. Felizmente ainda há muitos remanescentes desta época, que ainda tocam os brutos da marca Brasil a dentro.

José Carlos Reinert

Filho de Alfeiro e apaixonado pela marca.

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